Estes primeiros meses do governo Bolsonaro têm sido destaque na grande mídia e redes sociais pela repercussão de sua visita a Israel, pelas atrapalhadas de seus filhos e ministros. A imagem que é passada é de um desgoverno geral. No entanto, na área educacional várias medidas e iniciativas estão sendo tomadas visando o aprofundamento do processo de privatização.

No dia 3, em breves notas dos painéis de economia da grande mídia, fomos informados que na esteira da visita de Bolsonaro a Israel foi assinado uma parceria para acelerar o mercado milionário das startups educacionais. As startups educacionais, chamadas EdTech, desenvolvem aplicativos e plataformas on line a serem utilizadas no processo de aprendizagem ou modelos de gestão de escolas. Estudos revelam que este crescente mercado global de EdTch é altamente lucrativo, com estimativa de chegar a um faturamento de US$ 252 bilhões em 2020.

A parceria assinada no dia 2 pela Positivo - empresa do grupo fundado pelo senador Oriosto Guimarães (PODE-PR) - e o MindCET, centro israelense de aceleradora de startups, pretende de início montar uma aceleradora de startups em educação em Manaus.

Sendo assim, a expectativa é que nos próximos anos teremos no Brasil uma crescente presença deste tipo de empresa na área educacional. Segundo levantamento feito pela Associação Brasileira de Startups Educacionais, em parceria com Centro de Inovação para a Educação Brasileira (Cieb), já existem no país 364 startups educacionais. Destas, 43% estão concentradas no Estado de São Paulo, predominantemente nas pequenas escolas privadas da educação básica. Além deste mercado, esta empresa tem como objetivo aumentar sua participação na gestão das escolas públicas de educação básica e vencer obstáculos para atingir com seus produtos a venda direta para o consumidor, visando o mercado de 40 milhões de alunos do ensino publico.

À primeira vista, a introdução de novas tecnologias pode ser considerada como uma boa iniciativa na formação de estudantes. È inquestionável que novas tecnologias devem ser incorporadas no processo de aprendizagem, mas experiências internacionais revelam que elas podem contribuir efetivamente para a melhoria da qualidade da educação se estiverem inseridas em projetos educacionais que implementam a melhoria da formação, salários e condições de trabalho dos professores. Além do que propiciem ao estudante acesso a conteúdos e atividades que possibilitem seu pleno desenvolvimento, contribuindo para a formação de cidadãos éticos e comprometidos na construção de uma sociedade mais justa e solidária.

No entanto, o que se verifica é uma campanha orquestrada para valorizar a compra de serviços e produtos das EdTechs, a custa de desqualificar e desprofissionalizar o trabalho dos professores, responsabilizando-os pelo fracasso escolar. O que se pode esperar da ação das startups em termos de qualidade da educação, no contexto de um governo que se posiciona contra o investimento em educação pública? Cabe lembrar que a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), atual líder do governo no Congresso, em discurso no plenário da Câmara, disse ser contra mais investimentos na educação e culpou os professores. “... Para quê? Não adianta nada! Nossos professores hoje lamentavelmente não sabem ensinar”.

E qual conteúdo terão os produtos a serem “consumidos” pelos estudantes no governo defensor da “lei da mordaça inserida na chamada ‘Escola sem Partido’“ e que defende o golpe civil militar de 64? E que entende que solução para a gestão escolar deve ser nos padrões de gestão empresarial, implantada por startups?

Sendo assim, como alerta o professor Luis Carlos de Freitas “no desgoverno geral criado por Bolsonaro, a área econômica é um dos polos que sabe muito bem o que quer – além de ter apoio de neoliberais, liberais e militares. O governo (e o MEC especialmente) pode parecer paralisado, mas isso não se aplica ao núcleo neoliberal”.

* Maria Clotilde Lemos Petta é professora licenciada da PUCC, diretora da CONTEE e Sinpro Campinas e Região, vice-presidente da CEA.

Fonte: Contee